Assim como fazia todas as sextas-feiras, Luís Claudio chegou do seu trabalho e foi preparar o molinete para ir até à praia pescar.
O dia já estava findando. O sol deixava no seu crepúsculo um costumeiro ar de nostalgia, muito propício para um pescador solitário como Luís Claudio. Enquanto preparava seu molinete, Luis Claudio recordava seu pai – quando ainda vivo – indo com ele e sua mãe – que também já falecera – em direção ao mar. Foram seus pais que lhe ensinaram a arte da pescaria. Contudo, agora, Luís Claudio pescava sozinho.
A casa onde morava com sua tia e irmão mais novo era modesta, muito modesta. Sua tia Eunice cuidava dos afazeres domésticos. Ela era uma pessoa agradável e muito zelosa com os sobrinhos; afinal, eles eram seus únicos familiares vivos. O irmão mais novo de Luis Claudio chamava-se Felipe, um garoto alegre e criativo. Era oito anos mais moço que o irmão. Ele possuía um problema sério de fibrose cística. Essa enfermidade tornava sua saúde extremamente debilitada. Todavia, apesar da dificuldade com a saúde de Felipe, eles eram realmente uma família muito feliz.
Luis Claudio colocou seu molinete no fusca 66 que pertencera a seu pai e rumou à praia. Não que a praia fosse longe da sua casa. Dava para se ouvir o som das ondas, chocando-se com a areia e sentir o cheiro inconfundível da maresia. Na verdade, Luis Claudio, como todo pescador que se presa, rumava ao mar na esperança de pescar “o peixe da sua vida”. Sendo assim, caminhando nessa expectativa, esse enorme e esperado peixe, jamais poderia ser levado nos braços.
A praia estava deserta. Não era à toa que ele escolhera as sextas-feiras à tarde para pescar. Ele gostava daquela solidão. Era a sua terapia para o dia estafante da repartição onde trabalhava.
Luis Claudio sorveu o ar puro da brisa leve que soprava do oceano, balançou os braços numa menção de que iria fazer exercícios, foi na direção da água e, aproveitando que o vento soprava algumas poucas marolas, molhou pés, mãos e pescoço; um ritual que se repetia todas as sextas-feiras à tarde. O rito terminou com uma boa olhada para o mar e alguns suspiros ao ver os últimos raios solares esconderem-se no horizonte.
Depois do ritual, repetido quase que inconscientemente, Luis Claudio foi pegar a vara de pescar e todos os apetrechos necessários.
Jogou a linha no mar, fincou a vara na areia e assentou-se na espera da primeira fisgada. Contudo, como sempre acontecia, ele ia adormecendo na longa espera pelo primeiro peixe. Seu sono era profundo; um sono de quem acorda ainda de madrugada para ir trabalhar.
O ritual do sono era tão certo quanto o do preparo para a pesca. Luis Claudio estirou-se na areia, fez de suas mãos juntas como uma prece o seu travesseiro, e, depois de dois longos bocejos, entregou-se sem resistência; adormeceu.
Os poucos minutos que passava dormindo na areia pareciam horas, devido à profundidade do cochilo. Essas madornas vinham sempre acompanhadas de sonhos lindos; na maioria das vezes com Aninha, uma bela moça, filha de um diácono da igreja que ele e sua família freqüentavam. No entanto, além dos sonhos, havia pesadelos que, vez por outra, o acordavam de forma brusca e assustadora. E, sempre que esses pesadelos aconteciam, eles o despertavam no momento em que sua linha estava sendo arrastada por um peixe.
Em seu cochilo profundo, ele ouviu alguns gritos. Porém, tudo parecia mais um de seus sonhos. Luis Claudio ficou inerte entre o arrebatamento do sonho e a realidade dos gritos. Na verdade, o cochilo daquele dia estava tão prazeroso que ele decidiu não acordar, até que tivesse certeza que os gritos eram reais ou somente uma peça que sua mente queria pregar.
“Entre o sim e o não”, sonhou o adormecido, “vou ficar dormindo e ver o que acontece.”
Fato é que a voz ficava cada vez mais audível, e cada vez mais familiar. Quando, súbita e violentamente, sua tia o sacudiu:
“Acorda, Luis, acorda!”
Sua tia Eunice estava realmente aflita e ofegante. Aflita, pela notícia que levava consigo. Ofegante, por causa dos gritos e da corrida que teve que imprimir na areia.
“É Felipe... É Felipe...”
“Calma tia, respire fundo e me conta o que está acontecendo.”
“Felipe está tendo mais uma crise respiratória. Ele esta La em casa, branco feito cera.”
Luis Claudio não pensou duas vezes. Sabedor da gravidade da doença do irmão e da sua debilidade física largou tudo o que levara consigo para a praia, e voltou a sua casa a toda velocidade.
Quando lá chegou, a primeira providência foi levar Felipe ao hospital mais próximo. Era um hospital particular. O atendimento era caro, e Luis Claudio sabia que não poderia pagar. Todavia, o hospital público fica a horas de sua casa.
“Mas vocês têm que atender a uma emergência”, disse Luis Claudio com seu irmão no colo, “é a lei.”
“Sim”, concordou a enfermeira atrás do balcão, “nós atenderemos a emergência, mas para que ele fique aqui você terá que pagar uma taxa, senão...”
“Senão o quê, moça? É meu irmão.” Retrucou Luis Claudio, desesperado.
A enfermeira fez sinal para que levassem Felipe ao local onde seria atendido por um médico. Em seguida deu a Luis Claudio um papel com o valor da taxa que ele teria que pagar, caso fosse necessária a estadia de Felipe. A conta era absurda. Luis Claudio sabia que não teria dinheiro.
De súbito lembrou-se que havia deixado o molinete na praia. Com a pressa, nada recolhera; tudo estava como havia deixado.
“Vou providenciar o dinheiro e trazer minha tia para ficar com ele.”
Luis Claudio levantou-se para sair.
“Tudo bem”, respondeu a enfermeira, “seu irmão recebera um bom tratamento.”
Quando entrou no fusquinha, começou um monologo inusitado:
Como eu vou arrumar esse dinheiro? Perguntava olhando para o trânsito e a conta do hospital.
“É, Meia-Meia, você vai ‘dançar’ dessa vez...”
Luis Claudio referia-se ao fusca, a quem eles chamavam carinhosamente de “Meia-Meia”; esse era o seu nome e ano de fabricação.
“Quanto será que vão me dar por você?”
O fusca deu uma engasgada numa ladeira e Luis Claudio esbravejou:
“Não reclama, não. É pra salvar o Felipe. Fica calmo que depois eu compro você de volta.”
O monólogo prolongou-se até a praia. Quando lá chegou, ao recolher a linha de dentro d’água, percebeu que havia fisgado um peixe. À medida que girava o molinete e trazia o peixe à praia, lembrou-se do encontro de Jesus com Pedro, quando o mestre operou o milagre da moeda dentro do peixe. Começou, então, a devanear:
“Jesus, bem que o Senhor poderia operar o milagre. Faça com que dentro desse peixe tenha o dinheiro que preciso. Pode ser uma moeda de ouro, dólar, cartão de crédito, qualquer coisa.”
Luis Claudio recolheu o peixe e, ajuntando tudo saiu apressado para casa. Correu imediatamente para a cozinha, pegou uma faca e, com muito cuidado, foi partindo o peixe. Ele nunca crera tanto em milagres como naqueles poucos minutos em que abria o peixe. Havia uma certeza inabalável que Jesus repetiria o milagre.
“Afinal”, pensava, “Ele é o mesmo ontem, hoje e será para sempre.”
Sua tia Eunice estranhava o cuidado cirúrgico com que seu sobrinho estava cortando aquele peixe. Ele entrara afoito em casa e mal havia dado noticias do irmão enfermo.
“Que esquisitice é essa?” Indagava tia Eunice.
O coração de Luis Claudio acelerou, seus olhos arregalaram e, de repente um sorriso brotou em seu rosto ao ver um pedaço de papel retangular que mais parecia um cheque. Ele retirou o papel com muito cuidado e, às gargalhadas, ergueu a folha do cheque no valor exato do débito com o hospital. O milagre acontecera mais uma vez.
“Obrigado, Senhor! Obrigado, Senhor!”
Luis Claudio começou a gritar e a sorrir com o cheque na mão.
”O que foi Luis? Por que você está gritando?”
Luis Claudio pegou sua tia nos braços e, arremessando-a para cima, passou a beijá-la sorridente.
“Deus é bom, tia! Deus é bom!”
Depois dos momentos de alegria intensa, Luis Claudio explicou à sua tia o milagre que Deus acabara de operar. Juntos, então, foram ao hospital, certos de que tudo estava resolvido. E, ainda dentro do carro, Luis Claudio exclamou:
“É, Meia-Meia, levanta as rodas pr’o céu e agradece, meu filho. Deus livrou ‘sua pele’.”
Nunca a viagem naquele fusquinha fora tão confortável e festiva. Na mesma proporção, nunca entrar naquele hospital havia sido tão aprazível.
“Aqui está”, disse Luis Claudio à enfermeira, mostrando o cheque e colocando-o no balcão.
“O doutro quer conversar com vocês.”
A enfermeira pegou o cheque, saiu de trás do balcão e conduziu Luiz Claudio e sua tia Eunice até o médico que atendera Felipe.
“Sentem-se”, disse o doutor apontando para o canto da sala.
“O que foi doutor?” perguntou Luis Claudio, extremamente aflito.
“Seu irmão está muito mal. Ele teve complicações com seu aparelho respiratório. Nesse exato momento ele está no CTI.”
“Mas, doutor, quando o trouxe ele ainda estava consciente.”
A aflição de Luis Claudio, que já derramava lágrimas, contagiou sua tia Eunice. Ela não suportou ouvir que seu sobrinho estava tão ruim e começou um lamento inconsolável:
“Como ele está doutor?” Perguntou a tia Eunice. “Ele é tudo o que eu tenho. Ele vai sobreviver?”
O doutro aproximou-se e pôs-se a explicar:
“Ele está respirando com a ajuda de aparelhos. Sua respiração está muito fraca. Vou explicar melhor: vocês já viram um peixe fora d’água? A sua agonia é intensa não é? Pois bem, ele está respirando como um desses peixes.”
“E agora, doutor?”, perguntou Luis Claudio, “o que vocês vão fazer?”
“Teremos que operar o milagre de que, mesmo fora d’água, esse peixe respire.”
Naquele exato momento, ao ouvir as palavras do médico, Luis Claudio lembrou-se do que pescara em altos brados, clamou!
“Não, um peixe, não! Um peixe, não!
“Luis, acorda, Luis!”
Sua tia Eunice o sacudiu, e Luis Claudio despertou do sonho.
“Tia Eunice!” Exclamou o apavorado pescador, “é a senhora? Cadê o Felipe?”
“Ele está lá em casa, acabou de chegar da escola.”
“Da escola?! Mas ele já ganhou alta?”
Que alta Luis?”Indagou tia Eunice, estranhando as perguntas sem nexo do sobrinho.
“A alta do hospital tia. Ele não estava no CTI?”
Tia Eunice levantou-se indignada e repreendeu Luis Claudio com Severidade:
“Bate nessa boca Luis. Seu irmão estava na escola e, como você demorou na pescaria, resolvi lhe chamar para ir jantar.”
Luis sentiu a areia da praia, observou a imensidão do mar, viu ainda os últimos raios de sol iluminar o oceano e constatou que tudo não passara de um pesadelo.
“Você está bem, Luís?” Acudiu tia Eunice.
“Sim tia, estou bem.”
Luis Claudio suspirou e percebeu que a linha do seu anzol estava sendo puxada. Ele fisgara um peixe. Levantou-se e foi enrolando tal qual no pesadelo. Depois que viu o peixe na areia, constatou que era idêntico ao do sonho; o mesmo comprimento, a mesma cor, a mesma espécie.
Tia Eunice aproximou-se ao perceber Luis olhando com estupefação para o peixe e perguntou:
“Você está bem mesmo Luis?”
“Sim tia.”
Luis não desgrudava os olhos do peixe que ainda se debatia na areia. Percebeu que ele agonizava na ânsia por fôlego. As palavras do médico com quem sonhara, sobre o peixe fora d’água, ecoavam na sua memória:
“Teremos que operar o milagre de que mesmo fora d’água esse peixe respire!”
Contudo, ao contemplar aquele peixe debater-se, um pensamento não poderia faltar-lhe nessa hora:
“Será que o cheque está aí?”
Num ato quase que solene, ele retirou o peixe do anzol, colocou-o na caixa de isopor que levara consigo e voltou com sua tia para casa. Quando chegou, abraçou seu irmão Felipe com tamanho ardor que o garoto estranhou tanto carinho. Depois, retirou o peixe da caixa de isopor com muito cuidado, e foi limpa-lo com a mesma faca do pesadelo.
Felipe que gostava de aprender com o irmão as manhas do mar, correu a ajudá-lo.
“Deixe-me limpá-lo.”
“Não”, recusou Luis, “esse aqui é especial.”
Sua concentração era total. Ele repetia lenta e zelosamente todos os passos que fizera no sonho. A mesma certeza, a mesma fé, o mesmo corte, a mesma esperança.
“Afinal, repetia quase que num ato de superstição, “Deus é o mesmo ontem, hoje e será sempre.”
Sua mão deslizava cuidadosamente.
“Vamos logo Luis.”
“Você até parece que esta com pena. Afinal, você é amigo do peixe?”
“Sim”, respondeu Luis, “somos velhos conhecidos.”
Felipe não possuía a mesma paciência; talvez pó não compartilhar da mesma esperança.
A precisão no introduzir a peixeira seria vital para não danificar o cheque.
“Dessa vez”, pensava Luis, “vou olhar de quem é a assinatura.”
O coração batia acelerado. O suor lhe banhava o rosto. A ansiedade em avistar o cheque deixava-o quase sem respiração. No entanto, não havia cheque; só víscera. A fisionomia de frustração de Luis foi latente.
“O que foi Luis? Parece que você ficou decepcionado com alguma coisa.”
Segundos depois do êxtase da espera, Luis sorriu conformado. Virou-se para Felipe e passou a narrar o sonho do milagre do peixe: o cochilo na praia, a doença inesperada, a cobrança do hospital, a providência do cheque e as palavras do doutor.
“Que pena Luis,” lamentou Felipe, “bem que Deus poderia repetir o milagre.”
Luis Claudio abraçou seu irmão, sorriu da inocência de ambos, e recordando o que o médico do sonho dissera, concluiu:
“Não, Felipe. O milagre do peixe, respirando fora d’água, é maior que o milagre do cheque dentro do peixe.”
Nenhum comentário:
Postar um comentário