terça-feira, 23 de novembro de 2010

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

MAINHA





Composta no Seminário Teológico do Sul do Brasil, no dia 23/06/94, às 16:34, depois de passar alguns anos sem ver minha mãe. Ontem (14/11/2010), Mainha faleceu e está com o Pai.

Ah! Mainha,
Se tu visses a dor que me inunda o peito,
A saudade que me dilui a alma
E a vontade de chorar que destrói meu corpo,
Tu,
Certamente,
Virias até aqui e me farias companhia;
Colocar-me-ias em teu colo,
Acariciaria-me o peito até a dor passar,
Cantarias cantigas que me enlevassem a alma
E me farias dormir para poder, enfim, chorar.
Ah! Mainha,
Mas, tu não estás aqui.
Não podes ver a dor que me inunda,
Nem a saudade que me dilui
E nem a minha vontade de chorar.
Ah! Mainha,
Só queria que a dor fosse embora,
Que a saudade sumisse,
Mas, queria chorar;
Chorar muito!
Até não haver mais lágrimas.
Até não haver mais dor,
Nem saudade,
Até não haver mais nada.
Ah! Mainha,
Se tu visses as lágrimas que choro!
São lindas!
São minhas!
São tuas!
Poderia formar um lago com elas, Mainha,
Se toda a saudade que sinto
Viesse expressa em lágrimas.
Amar-te-ei, Mainha!

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

SOBRE SONHADORES



As intempéries da vida têem colocado os pés dos sonhadores no chão e dito: Não voe!
Todavia, como não voar se a essência de um sonhador são suas asas?

O POÇO

Às vezes Deus nos leva às profundezas de um poço para nos dar água limpa (João 4.11).

O VERDADEIRO ADORADOR

O verdadeiro adorador é assim: enquanto Deus o procura (João 4.24), ele procura a Deus.

ANGELA


Farol que ilumina o dia.
A luz que me irradia.
Tu és fonte que sacia
A sede deste pobre cantador,
Que adora ser escravo só do teu amor.

O ar que eu respiro e espero.
O mar que o banhar venero.
O sol que o aquecer eu quero.
Um anjo lindo que sobrevoou
Gritando o seu nome que alguém cantou:

Angela, teu nome é doce mais que o mel,
O meu destino é te cantar.
Angela, contigo estou perto do céu,
Nada nos pode separar.

A ESTRELA E OS COMETAS

A lenda da Estrela que corria atrás do Sol.

No universo inteiro reinava densa escuridão;
Parecia mesmo não haver nenhuma luz.
As trevas traziam medo, sombra e solidão;
No universo imenso nada, nada há que seduz.

A Terra aguardava ansiosa pelo intenso brilho,
Que traria consigo a linda manhã de um novo dia.
Como a mãe feliz que espera pelo filho,
A terra esperava o Sol, a trazer-lhe companhia.

Mas antes que a terra sorrisse, ou que os homens acordassem,
Surgiu uma pontinha de luz no universo a prantear.
E antes que a terra aplaudisse, ou que os homens chorassem,
Uma Estrela ansiosa aguardava a hora do Sol passar.

Paciente esperava pelo primeiro raio de luz,
Que com tamanha exuberância iluminou a imensidão.
Chorou ao vê-lo passando; não tinha jeito era uma cruz!
Aquele raio era uma flecha a ferir-lhe o coração.

De repente, outro raio, e mais outro, e assim,
Num espetáculo de luzes o Sol apareceu.
Aplacou a escuridão numa imponência sem fim,
Seu brilho parou o mundo, o universo emudeceu.

E a Estrela pequenina irradiava felicidade,
Aplaudia o espetáculo e chamava o Sol de senhor.
Coitadinha da Estrela era só simplicidade!
Onde o Sol fosse ela ia; tudo em nome de seu amor.

Ela esperava o dia em que o Sol a notasse ali,
E não se importava nem um pouco de atrás do Sol correr.
“O brilho do sol”, afirmava, “é a razão porque nasci.
E sem o sol nesta vida o melhor para mim é morrer”.

Por isso, vivia assim, correndo para tentar alcançar
O Sol, para enfim, lhe dizer o que trazia no coração.
Mas, ele era veloz, ela, então, só fazia gritar
Frases de amor que ecoavam na densa escuridão.

Tantas frases ecoaram na imensidão do universo,
Que outros corpos celestes ouviram os apelos de dor.
Eram Cometas que unânimes decidiram ver de perto
A Estrela apaixonada, que fazia tudo em nome do amor.

Viram dois brilhos velozes o universo a iluminar,
Deixando faíscas de luz, fragmentos de orgulho e dor.
Soberbo, o Sol, pois, com o seu brilho nada havia para comparar,
E a Estrela apaixonada só deixava faíscas de amor.

Os Cometas olharam atentos a Estrela que cansada corria,
A acharam tão linda e formosa; entregaram-lhe seus corações.
E choraram ao ver triste cena da Estrela e sua agonia,
O seu choro encheu toda a terra, pois, os Cometas eram muitos milhões.

Que brincadeira maldosa! Que ironia cruel!
Os Cometas apaixonados corriam sem se cansar
Atrás da Estrela que, então, corria no vasto céu,
Atrás do Sol que, soberbo, nem sequer a queria notar.

Eram muitos milhões de Cometas que estavam apaixonados,
Declarando amor eterno para aquela Estrela sem sorte.
Diziam: “Vem, um de nós ficará ao teu lado.
E os outros sozinhos, estes clamarão pela morte.

Pois, neste negro universo sem sua maravilhosa presença,
É morrer para a vida de todo, como a flor que não tem um jardim.
Para nós, ó Estrela, ficar sem você é a sentença
Que nos leva ao abismo de morte; sem fundo, sem vida, sem fim”.

Mas a Estrela apaixonada, soberba agora ficou.
Pois, milhões de Cometas clamavam: “Vem e faça feliz um de nós”.
Fingiu não o ouvir o lamento, seu caminho continuou,
Correndo e gritando ao Sol, que soberbo não lhe ouvia a voz.

Passaram-se os dias, foram-se os anos seguidos
Desta louca correria no universo desenfreada.
Na terra por um século se ouvia os gemidos
Dos muitos milhões de Cometas e da Estrela apaixonada.

Mas o amor no universo aos poucos diminuiu,
Pois, os milhões de Cometas já não eram tantos assim.
E do coração deles todos o amor que existia sumiu,
O rastro de amor que deixavam, pouco a pouco teve seu fim.

Até que um dia a Estrela apaixonada
Resolveu parar um pouquinho a sua louca correria.
Realmente, ela estava extremamente cansada,
E seu amor pelo Sol aos poucos também morria.

Parou, virou-se, lentamente olhou para trás
À procura dos muitos Cometas que lhe deram os corações.
Viu só um que muito paciente e sagaz,
Sozinho havia restado, foi mais forte que tantos milhões.

A Estrela, então, indagou para aquele Cometa paciente:
“Onde estão os teus amigos? Por que não cantam mais para mim?”
O Cometa sagaz respondeu: “Ah! Estrela, sinceramente,
Desistiram de obtê-la, certo dia seu amor teve fim.

Só eu restei neste céu e ainda estou aqui
Para lhe dizer que desista, o Sol nunca lhe amou.
Tanto tempo esperei o momento, de ver-te do Sol desistir,
Mas, é tarde, vou embora, como os outros meu amor acabou”.

“Não se vá!” sussurrou a Estrela, sem forças para gritar.
Cansada e cheia de dores, principalmente a do coração,
Sussurrou novamente ao Cometa: “Por favor, amigo, não vá!
Não me deixe sozinha aqui, detesto a solidão”.

“Amigo?!” Indagou o Cometa virando-se e partindo.
A Estrela quieta o olhou sumir na densa escuridão.
E viu dos seus olhos milhões de gotas caindo,
E também um pedaço do peito que julgou ser o coração.

Os pedaços do coração do Cometa caíram pelo planeta Terra,
E transformaram-se imediatamente em pedras preciosas,
E é na dor do Cometa que ironicamente se encerra,
A alegria de algumas pessoas que se adornam vaidosas.

Enquanto na Terra reinava a alegria de uma nova vida,
No universo a Estrela agora chorava o amor perdido.
Gritava pelo Cometa na esperança de ser ouvida,
Porém, no universo inteiro ninguém ouvia o seu gemido.

Gritou tanto a coitadinha até que perdeu sua voz.
Andou tanto a Estrelinha que suas pernas não podia sentir.
De tanto chorar secaram-se as lágrimas, e, estava a sós.
Seus olhos costumaram não ver, seus ouvidos pouco podiam ouvir.

Ela parou, ficou quieta, esperando poder sentir alguém passar.
Até que sentiu uma brisa leve e fria vinda do lado norte.
Perguntou já sorridente: “Amigo? É você? Por favor, não vá!”
“Não sou amigo. Não vou partir. Vim lhe buscar. Eu sou a Morte”.

A Morte fria e imperdoável agarrou sua mão e a levou,
A um lugar escuro e denso; lugar secreto! Um vil mistério!
Cega, quase surda, a Estrela disse: “Onde estou?”
“Na minha casa, lar da tristeza, da aflição eterna: no cemitério”.

Ela ficou ali, quieta, esperando poder sentir alguém passar.
Até que sentiu uma brisa leve, como o sussurrar de um poeta.
“Quem é você? Morte? Não me deixe só. Por favor, não vá!”
“Não sou a Morte. Não vou partir. Vim para ficar. Sou o Cometa”.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Abra os olhos

Se quiseres ser uma imponente ave e na imensidão do céu azul voar, feche os olhos, durma, sonhe e serás.

Se quiseres ser um grande peixe a nadar as águas profundas que umedecem o planeta, feche os olhos, durma, sonhe e serás.

Se quiseres ser um ágil felino que com sua força descomunal perscruta os lugares mais inóspitos e belos, feche os olhos, durma, sonhe e serás.

Tudo te é possível em teus sonhos!

Todavia, se quiseres ser alguém que, com dignidade, seja exemplo para os seus, abra os olhos, acorde, trabalhe e serás.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O VELHO E O BRASIL

Um velho arava a terra.
Solitário em seu campo,
Capinava de sol a sol.
Via em seus cabelos brancos,
Suas rugas por todo o corpo,
Sua preguiça em levantar a enxada
E sua fraqueza em sustentar o arado
Bons motivos para morrer.
Na verdade, ele vivia esperando a morte passar.
Ninguém mais ali restou;
Sua mulher havia morrido,
Seus filhos foram para a cidade grande,
E ele estava só na sua roça;
No meio de uma imensa mata virgem.
Não tinha ninguém para prosear.
Os únicos sons que ele ouvia eram dos sapos à beira da lagoa,
Da sua vaca leiteira,
Do seu cavalo marchador
E do seu cachorro vira-latas.
Todos tão velhos quanto ele.
De repente,
Ele ouviu o barulho do vento passando.
Não era um vento comum!
Foi como se esse vento tivesse passado por dentro dele.
Ele sentiu que era a morte tão esperada que tinha ido buscá-lo.
O velho soltou o cavalo,
Deixou a vaca no pasto,
Matou o cachorro amigo,
Tacou fogo na casa,
E, abrindo os braços ao relento, gritou chorando:
“Estou pronto, me leva, por favor.”
Deixou o vento soprar o último sopro de vida.
E, caindo no chão,
Morreu em cima de uma velha camisa
Que lhe servia como tapete, e onde estava escrito:
“Não me esqueça, Brasil.”

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O MILAGRE



Assim como fazia todas as sextas-feiras, Luís Claudio chegou do seu trabalho e foi preparar o molinete para ir até à praia pescar.
O dia já estava findando. O sol deixava no seu crepúsculo um costumeiro ar de nostalgia, muito propício para um pescador solitário como Luís Claudio. Enquanto preparava seu molinete, Luis Claudio recordava seu pai – quando ainda vivo – indo com ele e sua mãe – que também já falecera – em direção ao mar. Foram seus pais que lhe ensinaram a arte da pescaria. Contudo, agora, Luís Claudio pescava sozinho.
A casa onde morava com sua tia e irmão mais novo era modesta, muito modesta. Sua tia Eunice cuidava dos afazeres domésticos. Ela era uma pessoa agradável e muito zelosa com os sobrinhos; afinal, eles eram seus únicos familiares vivos. O irmão mais novo de Luis Claudio chamava-se Felipe, um garoto alegre e criativo. Era oito anos mais moço que o irmão. Ele possuía um problema sério de fibrose cística. Essa enfermidade tornava sua saúde extremamente debilitada. Todavia, apesar da dificuldade com a saúde de Felipe, eles eram realmente uma família muito feliz.
Luis Claudio colocou seu molinete no fusca 66 que pertencera a seu pai e rumou à praia. Não que a praia fosse longe da sua casa. Dava para se ouvir o som das ondas, chocando-se com a areia e sentir o cheiro inconfundível da maresia. Na verdade, Luis Claudio, como todo pescador que se presa, rumava ao mar na esperança de pescar “o peixe da sua vida”. Sendo assim, caminhando nessa expectativa, esse enorme e esperado peixe, jamais poderia ser levado nos braços.
A praia estava deserta. Não era à toa que ele escolhera as sextas-feiras à tarde para pescar. Ele gostava daquela solidão. Era a sua terapia para o dia estafante da repartição onde trabalhava.
Luis Claudio sorveu o ar puro da brisa leve que soprava do oceano, balançou os braços numa menção de que iria fazer exercícios, foi na direção da água e, aproveitando que o vento soprava algumas poucas marolas, molhou pés, mãos e pescoço; um ritual que se repetia todas as sextas-feiras à tarde. O rito terminou com uma boa olhada para o mar e alguns suspiros ao ver os últimos raios solares esconderem-se no horizonte.
Depois do ritual, repetido quase que inconscientemente, Luis Claudio foi pegar a vara de pescar e todos os apetrechos necessários.
Jogou a linha no mar, fincou a vara na areia e assentou-se na espera da primeira fisgada. Contudo, como sempre acontecia, ele ia adormecendo na longa espera pelo primeiro peixe. Seu sono era profundo; um sono de quem acorda ainda de madrugada para ir trabalhar.
O ritual do sono era tão certo quanto o do preparo para a pesca. Luis Claudio estirou-se na areia, fez de suas mãos juntas como uma prece o seu travesseiro, e, depois de dois longos bocejos, entregou-se sem resistência; adormeceu.
Os poucos minutos que passava dormindo na areia pareciam horas, devido à profundidade do cochilo. Essas madornas vinham sempre acompanhadas de sonhos lindos; na maioria das vezes com Aninha, uma bela moça, filha de um diácono da igreja que ele e sua família freqüentavam. No entanto, além dos sonhos, havia pesadelos que, vez por outra, o acordavam de forma brusca e assustadora. E, sempre que esses pesadelos aconteciam, eles o despertavam no momento em que sua linha estava sendo arrastada por um peixe.
Em seu cochilo profundo, ele ouviu alguns gritos. Porém, tudo parecia mais um de seus sonhos. Luis Claudio ficou inerte entre o arrebatamento do sonho e a realidade dos gritos. Na verdade, o cochilo daquele dia estava tão prazeroso que ele decidiu não acordar, até que tivesse certeza que os gritos eram reais ou somente uma peça que sua mente queria pregar.
“Entre o sim e o não”, sonhou o adormecido, “vou ficar dormindo e ver o que acontece.”
Fato é que a voz ficava cada vez mais audível, e cada vez mais familiar. Quando, súbita e violentamente, sua tia o sacudiu:
“Acorda, Luis, acorda!”
Sua tia Eunice estava realmente aflita e ofegante. Aflita, pela notícia que levava consigo. Ofegante, por causa dos gritos e da corrida que teve que imprimir na areia.
“É Felipe... É Felipe...”
“Calma tia, respire fundo e me conta o que está acontecendo.”
“Felipe está tendo mais uma crise respiratória. Ele esta La em casa, branco feito cera.”
Luis Claudio não pensou duas vezes. Sabedor da gravidade da doença do irmão e da sua debilidade física largou tudo o que levara consigo para a praia, e voltou a sua casa a toda velocidade.
Quando lá chegou, a primeira providência foi levar Felipe ao hospital mais próximo. Era um hospital particular. O atendimento era caro, e Luis Claudio sabia que não poderia pagar. Todavia, o hospital público fica a horas de sua casa.
“Mas vocês têm que atender a uma emergência”, disse Luis Claudio com seu irmão no colo, “é a lei.”
“Sim”, concordou a enfermeira atrás do balcão, “nós atenderemos a emergência, mas para que ele fique aqui você terá que pagar uma taxa, senão...”
“Senão o quê, moça? É meu irmão.” Retrucou Luis Claudio, desesperado.
A enfermeira fez sinal para que levassem Felipe ao local onde seria atendido por um médico. Em seguida deu a Luis Claudio um papel com o valor da taxa que ele teria que pagar, caso fosse necessária a estadia de Felipe. A conta era absurda. Luis Claudio sabia que não teria dinheiro.
De súbito lembrou-se que havia deixado o molinete na praia. Com a pressa, nada recolhera; tudo estava como havia deixado.
“Vou providenciar o dinheiro e trazer minha tia para ficar com ele.”
Luis Claudio levantou-se para sair.
“Tudo bem”, respondeu a enfermeira, “seu irmão recebera um bom tratamento.”
Quando entrou no fusquinha, começou um monologo inusitado:
Como eu vou arrumar esse dinheiro? Perguntava olhando para o trânsito e a conta do hospital.
“É, Meia-Meia, você vai ‘dançar’ dessa vez...”
Luis Claudio referia-se ao fusca, a quem eles chamavam carinhosamente de “Meia-Meia”; esse era o seu nome e ano de fabricação.
“Quanto será que vão me dar por você?”
O fusca deu uma engasgada numa ladeira e Luis Claudio esbravejou:
“Não reclama, não. É pra salvar o Felipe. Fica calmo que depois eu compro você de volta.”
O monólogo prolongou-se até a praia. Quando lá chegou, ao recolher a linha de dentro d’água, percebeu que havia fisgado um peixe. À medida que girava o molinete e trazia o peixe à praia, lembrou-se do encontro de Jesus com Pedro, quando o mestre operou o milagre da moeda dentro do peixe. Começou, então, a devanear:
“Jesus, bem que o Senhor poderia operar o milagre. Faça com que dentro desse peixe tenha o dinheiro que preciso. Pode ser uma moeda de ouro, dólar, cartão de crédito, qualquer coisa.”
Luis Claudio recolheu o peixe e, ajuntando tudo saiu apressado para casa. Correu imediatamente para a cozinha, pegou uma faca e, com muito cuidado, foi partindo o peixe. Ele nunca crera tanto em milagres como naqueles poucos minutos em que abria o peixe. Havia uma certeza inabalável que Jesus repetiria o milagre.
“Afinal”, pensava, “Ele é o mesmo ontem, hoje e será para sempre.”
Sua tia Eunice estranhava o cuidado cirúrgico com que seu sobrinho estava cortando aquele peixe. Ele entrara afoito em casa e mal havia dado noticias do irmão enfermo.
“Que esquisitice é essa?” Indagava tia Eunice.
O coração de Luis Claudio acelerou, seus olhos arregalaram e, de repente um sorriso brotou em seu rosto ao ver um pedaço de papel retangular que mais parecia um cheque. Ele retirou o papel com muito cuidado e, às gargalhadas, ergueu a folha do cheque no valor exato do débito com o hospital. O milagre acontecera mais uma vez.
“Obrigado, Senhor! Obrigado, Senhor!”
Luis Claudio começou a gritar e a sorrir com o cheque na mão.
”O que foi Luis? Por que você está gritando?”
Luis Claudio pegou sua tia nos braços e, arremessando-a para cima, passou a beijá-la sorridente.
“Deus é bom, tia! Deus é bom!”
Depois dos momentos de alegria intensa, Luis Claudio explicou à sua tia o milagre que Deus acabara de operar. Juntos, então, foram ao hospital, certos de que tudo estava resolvido. E, ainda dentro do carro, Luis Claudio exclamou:
“É, Meia-Meia, levanta as rodas pr’o céu e agradece, meu filho. Deus livrou ‘sua pele’.”
Nunca a viagem naquele fusquinha fora tão confortável e festiva. Na mesma proporção, nunca entrar naquele hospital havia sido tão aprazível.
“Aqui está”, disse Luis Claudio à enfermeira, mostrando o cheque e colocando-o no balcão.
“O doutro quer conversar com vocês.”
A enfermeira pegou o cheque, saiu de trás do balcão e conduziu Luiz Claudio e sua tia Eunice até o médico que atendera Felipe.
“Sentem-se”, disse o doutor apontando para o canto da sala.
“O que foi doutor?” perguntou Luis Claudio, extremamente aflito.
“Seu irmão está muito mal. Ele teve complicações com seu aparelho respiratório. Nesse exato momento ele está no CTI.”
“Mas, doutor, quando o trouxe ele ainda estava consciente.”
A aflição de Luis Claudio, que já derramava lágrimas, contagiou sua tia Eunice. Ela não suportou ouvir que seu sobrinho estava tão ruim e começou um lamento inconsolável:
“Como ele está doutor?” Perguntou a tia Eunice. “Ele é tudo o que eu tenho. Ele vai sobreviver?”
O doutro aproximou-se e pôs-se a explicar:
“Ele está respirando com a ajuda de aparelhos. Sua respiração está muito fraca. Vou explicar melhor: vocês já viram um peixe fora d’água? A sua agonia é intensa não é? Pois bem, ele está respirando como um desses peixes.”
“E agora, doutor?”, perguntou Luis Claudio, “o que vocês vão fazer?”
“Teremos que operar o milagre de que, mesmo fora d’água, esse peixe respire.”
Naquele exato momento, ao ouvir as palavras do médico, Luis Claudio lembrou-se do que pescara em altos brados, clamou!
“Não, um peixe, não! Um peixe, não!
“Luis, acorda, Luis!”
Sua tia Eunice o sacudiu, e Luis Claudio despertou do sonho.
“Tia Eunice!” Exclamou o apavorado pescador, “é a senhora? Cadê o Felipe?”
“Ele está lá em casa, acabou de chegar da escola.”
“Da escola?! Mas ele já ganhou alta?”
Que alta Luis?”Indagou tia Eunice, estranhando as perguntas sem nexo do sobrinho.
 “A alta do hospital tia. Ele não estava no CTI?”
Tia Eunice levantou-se indignada e repreendeu Luis Claudio com Severidade:
“Bate nessa boca Luis. Seu irmão estava na escola e, como você demorou na pescaria, resolvi lhe chamar para ir jantar.”
Luis sentiu a areia da praia, observou a imensidão do mar, viu ainda os últimos raios de sol iluminar o oceano e constatou que tudo não passara de um pesadelo.
“Você está bem, Luís?” Acudiu tia Eunice.
“Sim tia, estou bem.”
Luis Claudio suspirou e percebeu que a linha do seu anzol estava sendo puxada. Ele fisgara um peixe. Levantou-se e foi enrolando tal qual no pesadelo. Depois que viu o peixe na areia, constatou que era idêntico ao do sonho; o mesmo comprimento, a mesma cor, a mesma espécie.
Tia Eunice aproximou-se ao perceber Luis olhando com estupefação para o peixe e perguntou:
“Você está bem mesmo Luis?”
“Sim tia.”
Luis não desgrudava os olhos do peixe que ainda se debatia na areia. Percebeu que ele agonizava na ânsia por fôlego. As palavras do médico com quem sonhara, sobre o peixe fora d’água, ecoavam na sua memória:
“Teremos que operar o milagre de que mesmo fora d’água esse peixe respire!”
Contudo, ao contemplar aquele peixe debater-se, um pensamento não poderia faltar-lhe nessa hora:
“Será que o cheque está aí?”
Num ato quase que solene, ele retirou o peixe do anzol, colocou-o na caixa de isopor que levara consigo e voltou com sua tia para casa. Quando chegou, abraçou seu irmão Felipe com tamanho ardor que o garoto estranhou tanto carinho. Depois, retirou o peixe da caixa de isopor com muito cuidado, e foi limpa-lo com a mesma faca do pesadelo.
Felipe que gostava de aprender com o irmão as manhas do mar, correu a ajudá-lo.
“Deixe-me limpá-lo.”
“Não”, recusou Luis, “esse aqui é especial.”
Sua concentração era total. Ele repetia lenta e zelosamente todos os passos que fizera no sonho. A mesma certeza, a mesma fé, o mesmo corte, a mesma esperança.
“Afinal, repetia quase que num ato de superstição, “Deus é o mesmo ontem, hoje e será sempre.”
Sua mão deslizava cuidadosamente.
“Vamos logo Luis.”
“Você até parece que esta com pena. Afinal, você é amigo do peixe?”
“Sim”, respondeu Luis, “somos velhos conhecidos.”
Felipe não possuía a mesma paciência; talvez pó não compartilhar da mesma esperança.
A precisão no introduzir a peixeira seria vital para não danificar o cheque.
“Dessa vez”, pensava Luis, “vou olhar de quem é a assinatura.”
O coração batia acelerado. O suor lhe banhava o rosto. A ansiedade em avistar o cheque deixava-o quase sem respiração. No entanto, não havia cheque; só víscera. A fisionomia de frustração de Luis foi latente.
“O que foi Luis? Parece que você ficou decepcionado com alguma coisa.”
Segundos depois do êxtase da espera, Luis sorriu conformado. Virou-se para Felipe e passou a narrar o sonho do milagre do peixe: o cochilo na praia, a doença inesperada, a cobrança do hospital, a providência do cheque e as palavras do doutor.
“Que pena Luis,” lamentou Felipe, “bem que Deus poderia repetir o milagre.”
Luis Claudio abraçou seu irmão, sorriu da inocência de ambos, e recordando o que o médico do sonho dissera, concluiu:
“Não, Felipe. O milagre do peixe, respirando fora d’água, é maior que o milagre do cheque dentro do peixe.”

sábado, 11 de setembro de 2010

O Leitor de Bíblia


“Firmino, Firmino.”
Dona Zulmira havia acabado de aprontar o almoço e gritava o filho, único companheiro naquela pequena fazenda distante duas horas da vila.
“Firmino, o armoço tá pronto. Vem comê, minino,” insistia dona Zulmira a plenos pulmões, enquanto pela janela da cozinha, observava o filho deixando a enxada na horta e correndo em direção à casa.
Os dois acostumaram-se a viver um para o outro. Seo Oliveira, o marido de dona Zulmira e pai de Firmino, falecera havia mais de quinze anos. A filha mais velha do casal, que na época da morte do pai estava saindo da adolescência, havia fugido com um estranho galanteador e nunca mais voltara. Eles jamais tiveram notícias dela; achavam mesmo que estava morta.
Enfim, mãe e filho, agora viviam uma solidão acompanhada. Dona Zulmira cuidava da casa, enquanto “morria” de saudades do seu velho e da sua filha. Firmino, por as vez, trabalhava na roça e só possuía um velho galo branco e um pangaré, que havia sido de seu pai, para conversar suas intimidades.
“O pasto teve aqui,” disse dona Zulmira a Firmino que enterrara o rosto no prato e passara a reclamar, com a boca cheia de uma porção indecifrável de comida.
“Uai, mãe pru que a sinhora num me chamo?”
“Num fala de boca cheia, minino.”
Depois da repreenção, dona Zulmira passou a fazer o seu prato e continuou:
“Ocê tava tão intertido na labuta qui nem me oviu. Ocê só me ôve mermo quano eu grito o armoço.”
“Ara, mãe. E o qui ele disse?”
“Nada. O de sempre. Ele é um home bão. Seu pai foi ganhado pra Jesus pelo pai dele. Aliás, nóis tudo fomu ganhado pra crente pur ele.”
Firmino estava indignado por sua mãe não te-lo chamado. Afinal, como todos da casa, ele gostava de conversar com o pastor que havia tantos anos era amigo da família. Porém, no auge da sua indignação, ele comentou:
“Faz tanto tempo qui ele num vem pur aqui. Tinha inté me isquecido qui inxistia ingreja.
“Num se isqueceno de Deus. Ocê sabe qui o pasto num vem sempre aqui pruque o nosso sítio é longe da vila.”
“É, mas nóis sempre vamo na ingreja todos os finá de mês.”
“Firmino, Firmino, para de reclamá. Alembra do qui seu pai dizia...”
“Eu sei, mãe, eu sei...”
Firmino engoliu a comida e recitou o que cansara de ouvir do seu pai:
“Firmino, meu filho, se alembra de deus, qui Deus se alembra d’ocê.”
Firmino teve uma boa educação cristã. Apesar da pouca leitura, sabia o suficiente para ler a Bíblia todas as noites pra sua mãe, antes de ir dormir. Dona Zulmira já não enxergava as letras miúdas e apagadas da velha Bíblia do Seo Oliveira. Foi ele, Seo Oliveira, quem ensinou a todos da família o princípios cristãos.Naquela noite Firmino estava lendo a Biblia numa passagem que falava sobre a beleza da Cidade Santa. Era Apocalipse capítulo vinte e um. Dona Zulmira, que gostava de tecer comentários, mesmo a contragosto do filho, interrompeu a leitura, suspirando:
“Ah!meu veio já tá lá. Deve de ser lindo mermo! Ele nem num quis saí de lá pra vim me contá cum’é qui é lá. Só to esperano o meu dia chegá.”
“E eu, mãe, o qui vô fazê aqui sem a sinhora? Cê tá se isqueceno qui num sei cuzinhá?
“Larga mão de sê bobo, minino. Cê só mi qué aqui pra cuzinhá pr’ocê?”
“É claro que não né, mãe. E minha rôpa, quem vai lavá?”
“Êta mininoegoísta. Eu to falano do céu, Firmino, ocê também vai pra lá.”
“Mas eu quero í junto co’a sinhora.”
“Isso quem vai dicidi é Deus; não ocê.”
“Eu vô pedir pr’Ele qui quero qui nóis vai junto.”
“Miséricódi, será qui nem no céu eu vô tê um minutinho de sussego? E vamo Pará cum essa prosa. Continua a leitura.”
Parecia uma discussão, mas não era. O desejo de Firmino era verdadeiro. Ele não queria ficar sem sua mãe, que fora sua companhia solitária por quinze longos anos. Quanto ao desejo de dona Zulmira, esse era falso. Se pudesse, ela levaria seu filho consigo. Ou então ficaria com ele. Ela não podia mais imaginar a vida, nem por um segundo, longe do seu “Leitor de Bíblia”. Afinal, quem toleraria suas interrupções?
Na manhã seguinte, antes do galo cantar, dona Zulmira despertou seu filho, como de costume: puxou-lhe o cobertor e foi esbravejando palavras de ordem, como se fosse um sargento do corpo de fuzileiros. Firmino, no entanto, acordou com a moleza e as reclamações de sempre.
O sol já devia estar mostrando seus primeiros raios no horizonte. Contudo, o céu estava repleto de densas nuvens negras. Firmino já torcia pra chover; assim não teria que ir para a lavoura. Faria uns servicinhos ali mesmo no  paiol. Todavia, apesar das negras e densas nuvens, a chuva não veio.
Firmino foi ao curral ordenhar a vaca, voltou para casa, tomou seu café e, mesmo detestando a idéia, pegou a enxada indo em direção à lavoura e pedindo:
“Bença, mãe!”
“Deus te abençoe!”
Enquanto Firmino caminhou apressado para a roça, temendo não chegar antes da chuva, dona Zulmira pegou um pacote de milho na prateleira da cozinha e foi na direção do quintal. Ali havia algumas galinhas com seus pintinhos e um galo enorme, todos esperando pelo milho que sempre vinha na mesma hora no mesmo local.
De repente, o vento começou a soprar forte. Dona Zulmira largou o milho na janela da cozinha e correu rumo ao varal pra recolher algumas roupas ali estendidas. O barulho do forte vento foi suplantado pelo dos trovões, e, logo em seguida, o dos trovões pelo dos raios que ferozmente riscavam os céus. Dona Zulmira, então correu para dentro de casa.
Firmino, que ainda estava a caminho da roça, sentiu um aperto no coração e gritou:
“Mãe!”
Virou-se para ver se a sua mãe estava no quintal e viu um raio sair do meio das nuvens com um endereço certo: sua casa.
Quando foi atingida, a pequena casinha, feita de pau-a-pique, começou a incendiar-se. Parte do telhado veio a baixo e atingiu dona Zulmira que da janela olhava para o filho desesperado, correndo para salvar a sua mãe.
A chuva foi rápida e forte, por isso, fez lama, o que prejudicou a corrida de Firmino. No entanto, nem toda aquela chuva pôde com as labaredas que consumiam a casa. Firmino invadiu a casa em chamas e, sem temer o desabamento e o fogo, retirou sua mãe que estava sob uma viga de madeira, inconsciente.
Enquanto os trovoes e os relâmpagos faziam sua sinfonia aterradora nos céus, Firmino chorava abraçado à sua mãe, aparentemente morta, numa canção agonizante que misturava dor e saudade.
“Firmino, Firmino...”
Dona Zulmira abriu os olhos e balbuciou o nome do filho.
“Mãezinha, ocê tá viva.”
“Me leva pra cidade. Pega a carroça e me leva pra casa do pastô.”
Firmino não pensou duas vezes. Imediatamente colocou a mãe dentro do paiol, protegida da chuva, e correu a colocar o feio no cavalo. Em seguida, entrou na casa ainda em chamas e pegou dois cobertores. Com um forrou a carroça onde sua mãe iria deitada, e com o outro a cobriu.
Quando chegou à vila, cerca de três horas depois, foi direto para a casa do pastor, como pedira sua mãe.
“Pastô, pastô,” gritou Firmino saltando da carroça e pegando sua mãe no colo. O pastor abriu a porta, chamando Firmino para que entrasse.
“Um raio caiu na casa e atingiu minha mãe.”
O pastor olhou para dona Zulmira, abriu-lhe os olhos e apertando o pulso começou a sentir uma leve pulsação.
“Coloque-a  na carroça e vamos para o posto médico. O doutor Rui está lá.”
Firmino obedeceu e levou sua mãe para a carroça. Ele e o pastor subiram e foram em direção ao posto médico.
Ao chegarem ao pequeno ambulatório, o doutor Rui imediatamente atendeu a dona Zulmira. Foram horas em que Firmino ficou na sala de espera com o pastor, enquanto o médico tratava de sua mãe numa sala ao lado. Quando finalmente saiu, o doutor foi abordado por Firmino:
“Cadê a mãe, douto?”
O doutor rui estava apreensivo. Ele não queria passar para Firmino suas expectativas ruins sobre o caso: contudo foi muito sincero:
“Firmino, tudo o que eu podia fazer, eu fiz. Aqui na vila a gente não tem muito recurso e hoje, com essa chuva, não dá pra levá-la à cidade...”
“É,” confirmou o pastor, “a ponte caiu novamente.”
“Sua mãe teve um ferimento muito grave, Firmino. Ele perdeu muito sangue.”
“Eu posso vê ela, douto?”
“Pode,” disse o doutor, “mas só um pouquinho.”
Firmino fez menção de entrar no quarto onde estava sua mãe, mas um temor repentino invadiu seu coração. Então, ele olhou para o pastor como quem dissesse:
“Vem comigo.”
O pastor entendeu a mensagem transmitida naquele olhar apreensivo e entrou junto com Firmino. Já dentro da sala, Firmino começou a olhar as prateleiras com os medicamentos e aparelhos, e comentou:
“Nunca tive nuns lugá desse.”
 Quando avistou sua mãe deitada na maca, uma lágrima caiu-lhe dos olhos. Aproximou-se lenta e silenciosamente. O pastor, entendendo a importância do momento, parou dois passos atrás de Firmino e limitou-se a observar.
“Mãe, mãe, é eu, Firmino.”
Ele segurou levemente a mão de sua mãe, enquanto aguardava uma resposta.
“Mãe proseia comigo. É eu, mãe, Firmino.”
O silencio aterrador de dona Zulmira insistia em maltratar seu filho ansioso por respostas, acenos, o que fosse. Contudo, quando parecia que ela não responderia, a resposta veio. Dona Zulmira apertou mais forte a mão de Firmino, abriu bem devagar os olhos e esboçou um leve sorriso. Depois, com muita dificuldade, exclamou:
“Firmino, meu fio!”
“Mãe qui bom qui ocê ta viva.”
“Firmino, chego mia hora.”
“Hora Du que, mãezinha?”
“Ocê se alembra qui onti a noiite ocê leu do céu, na Bíblia?”
“Me alembro, sim.”
“Ocê se alembra qui te disse qui seu pai tá lá e qu’eu só tava inperano a hora d’eu í?
Firmino começou a entender qual era o rumo da prosa e começou a chorar.
“Pois é, meu fio, chegô a mia hora.”
“Mas, e eu, mãe, e eu?”
“Num seja egoísta, Firmino. Ocê continua leno a Bíblia.”
Nesse instante o pastor, entendeu a dor de mãe e filho, aproximou-se e colocou o braço direito sobre o ombro de Firmino e a mão esquerda sobre a cabeça de dona Zulmira.
“Olá, dona Zulmira.”
“Pastô,” sussurrou dona Zulmira, “qui bom qui o sinhô veio. O sinhô se alembra qui
Quando meu véio morreu o sinhô me disse que o céu é lindo?”
“Sim,” confirmou o pastor, “eu me lembro.”
“Pois o sinhô tava certo, pasto o céu é lindo. Mas, pasto, eu sempre achei qui o céu era lindo pruque o meu Oliveira tá lá. O sinhô sabe o qui faz o céu sê lindo, pasto?
Dona Zulmira fez surgir um leve sorriso em sua face, soltou uma lágrima de pura alegria e continuou:
“Jesus! O céu só é lindo pruque Ele tá lá. E Ele veio mi buscá...”
Dona Zulmira entendeu a dor do filho, deixou sua lagrima cair-lhe na face ao ouvir o seu pedido e replicou:
“Não, Firmino, o seu dia inda num chego. Hoje é o meu dia.”
“Intão, mãe, eu vô pedi pra Jesus num te levá agora...”
Dona Zulmira ergueu uma das mãos com dificuldade, fazendo sinal pra Firmino aproxima-se. Tocou-lhe a face com leveza e carinho, e lhe deu um beijo solene e profundo. O pastor logo entendeu ser aquele um beijo de despedida.
“Mãe,” insistiu Firmino não compreendendo a natureza de beijo, “pede pra Jesus te deixá cumigo. Pede pr’Ele í imbora...”
Dono Zulmira sorriu com ternura e num último suspiro disse:
“E pru que eu diria pr’Ele í embora, se isperei tanto pur esse incontro?”
Com essas palavras dona Zulmira expirou; ainda com um leve sorriso nos lábios.
A pequena fazendo mudou muito nos últimos anos. A casa antiga de pau-a-pique, que pegou fogo durante a tempestade, foi substituída por uma linda casa de alvenaria. Dentro dela os moveis velhos e acabados foram trocados por móveis novos e espaçosos. O telhado, agora firme e vistoso, ostenta uma antena parabólica que pode ser vista a muitos metros de distância. Nos pastos o gado é numeroso. O velho paiol foi substituído por um galpão que abriga centenas de frangos criados pr’o abate.  Na frente da casa há um imenso jardim e o asfalto vai até a porteira.
Todavia, apesar de todas essas transformações, uma coisa não mudou. Se você for lá, alguns minutos antes da hora de dormir, você vai ver um caboclo já idoso com uma Bíblia segura nas mãos trêmulas e os olhos cansados fitos nas palavras sagradas. E, certamente, se você pedir para ele ler o texto que mais gosta, ele abrirá na passagem que diz:

“E vi um novo céu, e uma nova terra. Porque já o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. E eu, João, vi a cidade santa, nova Jerusalém, que de Deus descia do céu, que dizia: Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens, pois com eles habitará, e eles serão o seu povo, e o mesmo Deus estará com eles, e será o seu Deus. E Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas” (Ap. 21.1-4) 



                                                                                                Pr. Marcos Gruvira