“Firmino, Firmino.”
Dona Zulmira havia acabado de aprontar o almoço e gritava o filho, único companheiro naquela pequena fazenda distante duas horas da vila.
“Firmino, o armoço tá pronto. Vem comê, minino,” insistia dona Zulmira a plenos pulmões, enquanto pela janela da cozinha, observava o filho deixando a enxada na horta e correndo em direção à casa.
Os dois acostumaram-se a viver um para o outro. Seo Oliveira, o marido de dona Zulmira e pai de Firmino, falecera havia mais de quinze anos. A filha mais velha do casal, que na época da morte do pai estava saindo da adolescência, havia fugido com um estranho galanteador e nunca mais voltara. Eles jamais tiveram notícias dela; achavam mesmo que estava morta.
Enfim, mãe e filho, agora viviam uma solidão acompanhada. Dona Zulmira cuidava da casa, enquanto “morria” de saudades do seu velho e da sua filha. Firmino, por as vez, trabalhava na roça e só possuía um velho galo branco e um pangaré, que havia sido de seu pai, para conversar suas intimidades.
“O pasto teve aqui,” disse dona Zulmira a Firmino que enterrara o rosto no prato e passara a reclamar, com a boca cheia de uma porção indecifrável de comida.
“Uai, mãe pru que a sinhora num me chamo?”
“Num fala de boca cheia, minino.”
Depois da repreenção, dona Zulmira passou a fazer o seu prato e continuou:
“Ocê tava tão intertido na labuta qui nem me oviu. Ocê só me ôve mermo quano eu grito o armoço.”
“Ara, mãe. E o qui ele disse?”
“Nada. O de sempre. Ele é um home bão. Seu pai foi ganhado pra Jesus pelo pai dele. Aliás, nóis tudo fomu ganhado pra crente pur ele.”
Firmino estava indignado por sua mãe não te-lo chamado. Afinal, como todos da casa, ele gostava de conversar com o pastor que havia tantos anos era amigo da família. Porém, no auge da sua indignação, ele comentou:
“Faz tanto tempo qui ele num vem pur aqui. Tinha inté me isquecido qui inxistia ingreja.
“Num se isqueceno de Deus. Ocê sabe qui o pasto num vem sempre aqui pruque o nosso sítio é longe da vila.”
“É, mas nóis sempre vamo na ingreja todos os finá de mês.”
“Firmino, Firmino, para de reclamá. Alembra do qui seu pai dizia...”
“Eu sei, mãe, eu sei...”
Firmino engoliu a comida e recitou o que cansara de ouvir do seu pai:
“Firmino, meu filho, se alembra de deus, qui Deus se alembra d’ocê.”
Firmino teve uma boa educação cristã. Apesar da pouca leitura, sabia o suficiente para ler a Bíblia todas as noites pra sua mãe, antes de ir dormir. Dona Zulmira já não enxergava as letras miúdas e apagadas da velha Bíblia do Seo Oliveira. Foi ele, Seo Oliveira, quem ensinou a todos da família o princípios cristãos.Naquela noite Firmino estava lendo a Biblia numa passagem que falava sobre a beleza da Cidade Santa. Era Apocalipse capítulo vinte e um. Dona Zulmira, que gostava de tecer comentários, mesmo a contragosto do filho, interrompeu a leitura, suspirando:
“Ah!meu veio já tá lá. Deve de ser lindo mermo! Ele nem num quis saí de lá pra vim me contá cum’é qui é lá. Só to esperano o meu dia chegá.”
“E eu, mãe, o qui vô fazê aqui sem a sinhora? Cê tá se isqueceno qui num sei cuzinhá?
“Larga mão de sê bobo, minino. Cê só mi qué aqui pra cuzinhá pr’ocê?”
“É claro que não né, mãe. E minha rôpa, quem vai lavá?”
“Êta mininoegoísta. Eu to falano do céu, Firmino, ocê também vai pra lá.”
“Mas eu quero í junto co’a sinhora.”
“Isso quem vai dicidi é Deus; não ocê.”
“Eu vô pedir pr’Ele qui quero qui nóis vai junto.”
“Miséricódi, será qui nem no céu eu vô tê um minutinho de sussego? E vamo Pará cum essa prosa. Continua a leitura.”
Parecia uma discussão, mas não era. O desejo de Firmino era verdadeiro. Ele não queria ficar sem sua mãe, que fora sua companhia solitária por quinze longos anos. Quanto ao desejo de dona Zulmira, esse era falso. Se pudesse, ela levaria seu filho consigo. Ou então ficaria com ele. Ela não podia mais imaginar a vida, nem por um segundo, longe do seu “Leitor de Bíblia”. Afinal, quem toleraria suas interrupções?
Na manhã seguinte, antes do galo cantar, dona Zulmira despertou seu filho, como de costume: puxou-lhe o cobertor e foi esbravejando palavras de ordem, como se fosse um sargento do corpo de fuzileiros. Firmino, no entanto, acordou com a moleza e as reclamações de sempre.
O sol já devia estar mostrando seus primeiros raios no horizonte. Contudo, o céu estava repleto de densas nuvens negras. Firmino já torcia pra chover; assim não teria que ir para a lavoura. Faria uns servicinhos ali mesmo no paiol. Todavia, apesar das negras e densas nuvens, a chuva não veio.
Firmino foi ao curral ordenhar a vaca, voltou para casa, tomou seu café e, mesmo detestando a idéia, pegou a enxada indo em direção à lavoura e pedindo:
“Bença, mãe!”
“Deus te abençoe!”
Enquanto Firmino caminhou apressado para a roça, temendo não chegar antes da chuva, dona Zulmira pegou um pacote de milho na prateleira da cozinha e foi na direção do quintal. Ali havia algumas galinhas com seus pintinhos e um galo enorme, todos esperando pelo milho que sempre vinha na mesma hora no mesmo local.
De repente, o vento começou a soprar forte. Dona Zulmira largou o milho na janela da cozinha e correu rumo ao varal pra recolher algumas roupas ali estendidas. O barulho do forte vento foi suplantado pelo dos trovões, e, logo em seguida, o dos trovões pelo dos raios que ferozmente riscavam os céus. Dona Zulmira, então correu para dentro de casa.
Firmino, que ainda estava a caminho da roça, sentiu um aperto no coração e gritou:
“Mãe!”
Virou-se para ver se a sua mãe estava no quintal e viu um raio sair do meio das nuvens com um endereço certo: sua casa.
Quando foi atingida, a pequena casinha, feita de pau-a-pique, começou a incendiar-se. Parte do telhado veio a baixo e atingiu dona Zulmira que da janela olhava para o filho desesperado, correndo para salvar a sua mãe.
A chuva foi rápida e forte, por isso, fez lama, o que prejudicou a corrida de Firmino. No entanto, nem toda aquela chuva pôde com as labaredas que consumiam a casa. Firmino invadiu a casa em chamas e, sem temer o desabamento e o fogo, retirou sua mãe que estava sob uma viga de madeira, inconsciente.
Enquanto os trovoes e os relâmpagos faziam sua sinfonia aterradora nos céus, Firmino chorava abraçado à sua mãe, aparentemente morta, numa canção agonizante que misturava dor e saudade.
“Firmino, Firmino...”
Dona Zulmira abriu os olhos e balbuciou o nome do filho.
“Mãezinha, ocê tá viva.”
“Me leva pra cidade. Pega a carroça e me leva pra casa do pastô.”
Firmino não pensou duas vezes. Imediatamente colocou a mãe dentro do paiol, protegida da chuva, e correu a colocar o feio no cavalo. Em seguida, entrou na casa ainda em chamas e pegou dois cobertores. Com um forrou a carroça onde sua mãe iria deitada, e com o outro a cobriu.
Quando chegou à vila, cerca de três horas depois, foi direto para a casa do pastor, como pedira sua mãe.
“Pastô, pastô,” gritou Firmino saltando da carroça e pegando sua mãe no colo. O pastor abriu a porta, chamando Firmino para que entrasse.
“Um raio caiu na casa e atingiu minha mãe.”
O pastor olhou para dona Zulmira, abriu-lhe os olhos e apertando o pulso começou a sentir uma leve pulsação.
“Coloque-a na carroça e vamos para o posto médico. O doutor Rui está lá.”
Firmino obedeceu e levou sua mãe para a carroça. Ele e o pastor subiram e foram em direção ao posto médico.
Ao chegarem ao pequeno ambulatório, o doutor Rui imediatamente atendeu a dona Zulmira. Foram horas em que Firmino ficou na sala de espera com o pastor, enquanto o médico tratava de sua mãe numa sala ao lado. Quando finalmente saiu, o doutor foi abordado por Firmino:
“Cadê a mãe, douto?”
O doutor rui estava apreensivo. Ele não queria passar para Firmino suas expectativas ruins sobre o caso: contudo foi muito sincero:
“Firmino, tudo o que eu podia fazer, eu fiz. Aqui na vila a gente não tem muito recurso e hoje, com essa chuva, não dá pra levá-la à cidade...”
“É,” confirmou o pastor, “a ponte caiu novamente.”
“Sua mãe teve um ferimento muito grave, Firmino. Ele perdeu muito sangue.”
“Eu posso vê ela, douto?”
“Pode,” disse o doutor, “mas só um pouquinho.”
Firmino fez menção de entrar no quarto onde estava sua mãe, mas um temor repentino invadiu seu coração. Então, ele olhou para o pastor como quem dissesse:
“Vem comigo.”
O pastor entendeu a mensagem transmitida naquele olhar apreensivo e entrou junto com Firmino. Já dentro da sala, Firmino começou a olhar as prateleiras com os medicamentos e aparelhos, e comentou:
“Nunca tive nuns lugá desse.”
Quando avistou sua mãe deitada na maca, uma lágrima caiu-lhe dos olhos. Aproximou-se lenta e silenciosamente. O pastor, entendendo a importância do momento, parou dois passos atrás de Firmino e limitou-se a observar.
“Mãe, mãe, é eu, Firmino.”
Ele segurou levemente a mão de sua mãe, enquanto aguardava uma resposta.
“Mãe proseia comigo. É eu, mãe, Firmino.”
O silencio aterrador de dona Zulmira insistia em maltratar seu filho ansioso por respostas, acenos, o que fosse. Contudo, quando parecia que ela não responderia, a resposta veio. Dona Zulmira apertou mais forte a mão de Firmino, abriu bem devagar os olhos e esboçou um leve sorriso. Depois, com muita dificuldade, exclamou:
“Firmino, meu fio!”
“Mãe qui bom qui ocê ta viva.”
“Firmino, chego mia hora.”
“Hora Du que, mãezinha?”
“Ocê se alembra qui onti a noiite ocê leu do céu, na Bíblia?”
“Me alembro, sim.”
“Ocê se alembra qui te disse qui seu pai tá lá e qu’eu só tava inperano a hora d’eu í?
Firmino começou a entender qual era o rumo da prosa e começou a chorar.
“Pois é, meu fio, chegô a mia hora.”
“Mas, e eu, mãe, e eu?”
“Num seja egoísta, Firmino. Ocê continua leno a Bíblia.”
Nesse instante o pastor, entendeu a dor de mãe e filho, aproximou-se e colocou o braço direito sobre o ombro de Firmino e a mão esquerda sobre a cabeça de dona Zulmira.
“Olá, dona Zulmira.”
“Pastô,” sussurrou dona Zulmira, “qui bom qui o sinhô veio. O sinhô se alembra qui
Quando meu véio morreu o sinhô me disse que o céu é lindo?”
“Sim,” confirmou o pastor, “eu me lembro.”
“Pois o sinhô tava certo, pasto o céu é lindo. Mas, pasto, eu sempre achei qui o céu era lindo pruque o meu Oliveira tá lá. O sinhô sabe o qui faz o céu sê lindo, pasto?
Dona Zulmira fez surgir um leve sorriso em sua face, soltou uma lágrima de pura alegria e continuou:
“Jesus! O céu só é lindo pruque Ele tá lá. E Ele veio mi buscá...”
Dona Zulmira entendeu a dor do filho, deixou sua lagrima cair-lhe na face ao ouvir o seu pedido e replicou:
“Não, Firmino, o seu dia inda num chego. Hoje é o meu dia.”
“Intão, mãe, eu vô pedi pra Jesus num te levá agora...”
Dona Zulmira ergueu uma das mãos com dificuldade, fazendo sinal pra Firmino aproxima-se. Tocou-lhe a face com leveza e carinho, e lhe deu um beijo solene e profundo. O pastor logo entendeu ser aquele um beijo de despedida.
“Mãe,” insistiu Firmino não compreendendo a natureza de beijo, “pede pra Jesus te deixá cumigo. Pede pr’Ele í imbora...”
Dono Zulmira sorriu com ternura e num último suspiro disse:
“E pru que eu diria pr’Ele í embora, se isperei tanto pur esse incontro?”
Com essas palavras dona Zulmira expirou; ainda com um leve sorriso nos lábios.
A pequena fazendo mudou muito nos últimos anos. A casa antiga de pau-a-pique, que pegou fogo durante a tempestade, foi substituída por uma linda casa de alvenaria. Dentro dela os moveis velhos e acabados foram trocados por móveis novos e espaçosos. O telhado, agora firme e vistoso, ostenta uma antena parabólica que pode ser vista a muitos metros de distância. Nos pastos o gado é numeroso. O velho paiol foi substituído por um galpão que abriga centenas de frangos criados pr’o abate. Na frente da casa há um imenso jardim e o asfalto vai até a porteira.
Todavia, apesar de todas essas transformações, uma coisa não mudou. Se você for lá, alguns minutos antes da hora de dormir, você vai ver um caboclo já idoso com uma Bíblia segura nas mãos trêmulas e os olhos cansados fitos nas palavras sagradas. E, certamente, se você pedir para ele ler o texto que mais gosta, ele abrirá na passagem que diz:
“E vi um novo céu, e uma nova terra. Porque já o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. E eu, João, vi a cidade santa, nova Jerusalém, que de Deus descia do céu, que dizia: Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens, pois com eles habitará, e eles serão o seu povo, e o mesmo Deus estará com eles, e será o seu Deus. E Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas” (Ap. 21.1-4)
Pr. Marcos Gruvira
